Teresa Tito de Morais:
"Recorde de deslocados implica 'enorme responsabilidade' para a comunidade internacional"

Lisboa, 19 de junho de 2018 (LUSA/CPR) - O novo recorde de deslocados por guerras e conflitos no mundo, 68,5 milhões de pessoas segundo a ONU, implica uma “enorme responsabilidade” para encontrar “soluções solidárias e duradouras”, afirmou esta terça-feira a presidente do Conselho Português para os Refugiados (CPR).

“Verificamos que as guerras, a violência e a perseguição têm atingido um recorde em termos numéricos e que abrange homens, mulheres e crianças. Cerca de 52% destes refugiados, em termos gerais, são crianças com idades abaixo dos 18 anos. O que nos traz uma enorme responsabilidade de encontrar soluções solidárias e duradouras para que este fenómeno não se agrave cada vez mais”, disse à Lusa Teresa Tito de Morais, numa reação aos dados divulgados hoje pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), na véspera do Dia Mundial do Refugiado.

Pelo quinto ano consecutivo, o número de pessoas deslocadas por guerras e conflitos, outras formas de violência e perseguições atingiu um novo recorde. Até finais de 2017, 68,5 milhões de pessoas no mundo tinham sido forçadas a fugir das respetivas casas ou a sair dos respetivos países, indicou o relatório anual do ACNUR.

Deste total, 25,4 milhões são refugiados, 40 milhões são deslocados internos e 3,1 milhões são requerentes de asilo.

O Dia Mundial do Refugiado é assinalado este ano num momento em que a comunidade internacional, sob os auspícios das Nações Unidas, está em negociações para tentar formalizar, até finais de 2018, um pacto global para os refugiados e para uma migração segura, regular e ordenada.

Algo que foi hoje referenciado pelo Alto Comissário da ONU para os Refugiados, o italiano Filippo Grandi.

“Estamos numa fase decisiva, na qual o sucesso da gestão do deslocamento forçado global exige uma abordagem nova e muito mais abrangente, para que os países e as comunidades não lidem com isso sozinhas”, disse Grandi.

“Mas há razão para alguma esperança. (…), em questão de meses, um novo pacto global para os refugiados estará pronto para ser adotado pela Assembleia-Geral das Nações Unidas. (…) Faço um apelo aos países membros da ONU que, por favor, apoiem essa causa”, frisou ainda o responsável.

Teresa Tito de Morais partilha da mensagem de esperança do Alto Comissário, “temos que ter esperança de que vão ser encontradas soluções”, mas ressalvou, no entanto, que nos tempos atuais o mundo tem assistido a “uma desumanidade completa” e a políticas que têm de ser impedidas.

“Cada vez mais o espaço de asilo está a diminuir, com a atitude de governos de caráter populista ou que para ganharem votos vão inviabilizando que o seu país possa acolher refugiados”, referiu a presidente do CPR, mencionando também as políticas migratórias atualmente verificadas nos Estados Unidos “que dividem famílias” e que “deixam traumas irreversíveis" em crianças que são separadas dos pais e dos familiares mais próximos em zonas de fronteira.

Como tal, a representante do CPR reforçou a importância da solidariedade face tais cenários e perante os números revelados pelo ACNUR, citando uma frase utilizada pelo próprio Filippo Grandi: “Ninguém escolhe tornar-se refugiado. Mas nós podemos escolher como vamos ajudá-los”.

A frase de Grandi "implica um compromisso da comunidade internacional para que não ponha de lado uma política humanitária, uma política solidária no acolhimento dos refugiados”, concluiu Teresa Tito de Morais.

 

DIVERSOS PROJECTOS DO CPR SÃO FINANCIADOS PELO FUNDO ASILO, MIGRAÇÃO E INTEGRAÇÃO (FAMI)

 

De acordo com as últimas estatísticas, o número de migrantes forçados em todo o mundo ultrapassa os 65 milhões e não pára de aumentar. O número de pessoas que buscam protecão no nosso país é de cerca de 870 por ano ou 87 pessoas por cada milhão de habitantes, um número bastante inferior à média europeia (2600 pedidos por milhão de habitantes na UE-28, em 2015). Há mais de um quarto de século que o CPR, sempre em colaboração com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), procura minimizar as consequências das deslocações forçadas, em particular das pessoas acolhidas em Portugal.