2014: novo recorde na deslocação global provocada por guerras, conflitos e perseguições
GENEBRA, 18 de junho de 2015 (ACNUR) - O relatório "Tendências Globais" (Global Trends) do Alto Comissa­riado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) divulgado hoje mostra que a deslocação global de popu­lação provocada por guerras, conflitos e perseguições atingiu um nível recorde e está a acelerar rapidamente.
Esta tendência de crescimento tem-se acentuado, principal­mente, a partir de 2011, quando se iniciou a guerra na Síria - e que se transformou no maior evento individual causador de deslocações no mundo. Em 2014, uma média de 42,5 mil pessoas por dia tornaram-se refugiadas, requerentes de proteção internacional ou deslocadas internos - um crescimento que quadruplicou em apenas quatro anos. Em todo o mundo, 1 em cada 122 indivíduos é atualmente refugiado, deslocado interno ou requerente de asilo. Se fossem a população de um país, representariam a 24º nação mais populosa do planeta.
"Estamos a testemunhar uma mudança de paradigma, entrando numa nova era na qual a escala da deslocação global e a resposta necessária a este fenómeno é claramente superior a tudo o que já aconteceu até agora", disse o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres. "É aterrorizador verificar que, de um lado, há cada vez mais e mais impunidade para os conflitos que se iniciam, e, por outro, há uma absoluta inabilidade da comunidade internacional em trabalhar conjuntamente para pôr fim às guerras e construir uma paz perseverante", afirmou o Alto Comissário.
O relatório do ACNUR mostra que as populações refugiadas e de deslocados internos cresceram em todas as regiões do mundo. Nos últimos cinco anos, iniciaram-se pelo menos 15 conflitos ou foram retomados: oito na África (Costa do Marfim, República Centro Africana, Líbia, Mali, nordeste da Nigéria, República Democrática do Congo, Sudão do Sul e Burundi, neste ano); três no Oriente Médio (Síria, Iraque e Iémen); um na Europa (Ucrânia); e três na Ásia (Quirguistão e em diferentes áreas de Mianmar e Paquistão).
Poucas dessas crises foram solucionadas e muitas continuam a gerar novas deslocações. Em 2014, apenas 126,8 mil refugiados conseguiram retornar para os seus países de origem - o menor número em 31 anos.
Entretanto, conflitos de longa data no Afeganistão, Somália e outros lugares fazem com que milhões de pessoas originárias destas regiões permaneçam em movimento, à margem da sociedade ou vivendo a incerteza de continuarem como refugiadas ou deslocadas internas por muitos anos. Entre as mais recentes e visíveis consequências dos conflitos globais está o dramático crescimento de refugiados que, em busca de proteção, empreendem jornadas perigosas pelo mar no Mediterrâneo, no Golfo de Áden, no Mar Vermelho e no Sudeste da Ásia.
As crianças são metade - O relatório Tendências Globais mostra que 13,9 milhões de pessoas se somaram ao número de novos deslocados, apenas em 2014 - quatro vezes mais que em 2010. Em todo o mundo, foram contabilizados 19,5 milhões de refugiados (acima dos 16,7 milhões de 2013), 38,2 milhões de deslocados dentro de seus próprios países (contra 33,3 milhões em 2013) e 1,8 milhão de requerentes de asilo (em comparação com 1,2 milhões em 2013). Um dado alarmante: metade dos refugiados no mundo é formada por jovens e crianças menores de 18 anos.
"Com enorme falta de financiamento e grandes falhas no regime global de proteção das vítimas de guerras, as pessoas com necessidade de compaixão, ajuda e asilo estão a ser abandonadas", afirmou Guterres. "Para uma época de deslocações massivas sem precedentes, necessitamos de uma resposta humanitária também sem precedentes, e um compromisso global renovado de tolerância e proteção para as pessoas que fogem de conflitos e perseguições", disse o Alto Comissário.
Atualmente, a Síria tem a maior população de deslocados internos (7,6 milhões) e também é o principal país de origem de refugiados (3,88 milhões, ao final de 2014) no mundo. O Afeganistão e a Somália vêm em seguida, sendo os países de origem de 2,59 milhões e 1,1 milhões de refugiados , respectivamente.
Mesmo com este claro crescimento nos números, a presença dos refugiados é bastante maior nos países mais pobres. De acordo com o relatório, 86% dos refugiados estão em regiões ou países considerados economicamente menos desenvolvidos. Um quarto de todos os refugiados está em países que integram a lista da ONU de nações menos desenvolvidas.
Europa (crescimento de 51%)
O conflito na Ucrânia, o recorde de travessias no Mediterrâneo (219 mil pessoas) e o grande número de refugiados sírios na Turquia (que em 2014 se tornou o país que acolhe a maior população de refugiados no mundo, com 1,59 milhões de sírios) chamaram a atenção do público para o tema do refúgio, tanto positiva quanto negativamente. Na União Europeia, a maioria das pedidos de proteção foi feita na Alemanha e na Suécia. Em geral, o número de migrantes forçados na Europa totalizou 6,7 milhões de pessoas no final do ano, comparado com os 4,4 milhões registados ao final de 2013. Quase 25% desta população são refugiados sírios na Turquia.
Médio Oriente e Norte da África (crescimento de 19%)
O sofrimento massivo causado pela guerra na Síria, com 7,6 milhões de deslocados internos e 3,88 milhões de refugiados nos países vizinhos, tornou o Oriente Médio a principal região de origem e acolhimento de populações deslocadas por conflitos e perseguições. Além das deslocações causadas pela Síria estão pelo menos 2,6 milhões de novos deslocados no Iraque - onde 3,6 milhões de pessoas eram consideradas deslocadas internas no final de 2014. Outro número relevante são os 309 mil novos deslocados registados na Líbia.
África Subsaariana (crescimento de 17%, excluindo a Nigéria)
Geralmente esquecidos, os numerosos conflitos na África - incluindo República Centro Africana, Sudão do Sul, Somália, Nigéria e República Democrática do Congo - geraram juntos deslocações forçadas enormes em 2014, embora numa escala ligeiramente menor que no Médio Oriente. No total, a África Subsaariana totalizou 3,7 milhões de refugiados e 11,4 milhões de deslocados internos - 4,5 milhões dos quais ocorridos em 2014. O crescimento médio de 17% exclui a Nigéria, onde ocorreram mudanças metodológicas no cálculo do deslocamento interno em 2014. A Etiópia substituiu o Quénia como principal país de destino de refugiados na região, e é agora o quinto maior no mundo.
Ásia (crescimento de 31%)
Geralmente um das principais regiões do mundo em termos de deslocação forçada, a Ásia registou um crescimento de 31% nestas populações em 2014 - chegando a 9 milhões de pessoas. O Afeganistão, que anteriormente era o principal país de origem de refugiados no mundo, cedeu esta posição para a Síria. Deslocações contínuas foram registadas em Mianmar em 2014, inclusive a minoria Rohinga do Estado de Rakhine Ocidental e nas regiões de Kachin e Shan. Irão e Paquistão continuam a ser dois dos quatro maiores países de recepção de refugiados.
Américas (crescimento de 12%)
A região das Américas observou um crescimento nas deslocações forçadas, embora tenha havido uma redução de 36,6 mil na população de refugiados colombianos durante o ano (estimada em 360,3 mil pessoas), principalmente por causa de revisões estatísticas na Venezuela. Entretanto, a Colômbia continua abrigando uma das maiores populações de deslocados internos no mundo, com cerca de 6 milhões de pessoas nesta situação reportadas no final de 2014 e com mais 137 mil colombianos que se deslocaram durante o ano passado. Devido à violência de gangues urbanos e outras formas de perseguição na América Central, os Estados Unidos receberam, em 2014, mais 36,8 mil pedidos de asilo do que o registado em 2013 - um crescimento de 44%.
A versão completa do relatório Tendências Globais (Global Trends) com estas informações detalhadas, com dados específicos por países - incluindo estatísticas de menores desacompanhados e de retornados aos seus países de origem - e estimativas da população apátrida, está disponível em www.unhcr.org/2014globaltrends.

 

 

DIVERSOS PROJECTOS DO CPR SÃO FINANCIADOS PELO FUNDO ASILO, MIGRAÇÃO E INTEGRAÇÃO (FAMI)

 

De acordo com as últimas estatísticas, o número de migrantes forçados em todo o mundo ultrapassa os 65 milhões e não pára de aumentar. O número de pessoas que buscam protecão no nosso país é de cerca de 870 por ano ou 87 pessoas por cada milhão de habitantes, um número bastante inferior à média europeia (2600 pedidos por milhão de habitantes na UE-28, em 2015). Há mais de um quarto de século que o CPR, sempre em colaboração com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), procura minimizar as consequências das deslocações forçadas, em particular das pessoas acolhidas em Portugal.