PORTUGUÊS LÍNGUA ESTRANGEIRA (PLE)
A aprendizagem da língua como um dos principais factores de integração

A barreira da língua é algo que se faz sentir logo à chegada dos requerentes de asilo, face às necessidades mais imediatas de interacção, aos níveis administrativo e social, na comunicação com os técnicos do CPR, nos contactos com as instituições, serviços médicos, etc.

O ensino da língua é uma responsabilidade incontornável do país de acolhimento, na promoção de medidas indispensáveis para a integração dos refugiados.

Várias organizações e associações promovem cursos para estrangeiros, mas, no que se refere às necessidades de aprendizagem dos requerentes de asilo e refugiados, o CPR tem sido, desde 1997, o principal responsável pelo desenvolvimento de acções de formação de Língua Portuguesa, ao abrigo de projectos co-financiados pelo Estado Português e pelo Fundo Social Europeu.

A aquisição de competências linguísticas e comunicativas processa-se de forma diferente de indivíduo para indivíduo, havendo, para a maioria, duas etapas distintas, mas interligadas:

  • A fase do acolhimento
  • A fase da integração

Na fase de acolhimento, as aulas têm, como objectivo principal, a familiarização com a língua e a cultura portuguesas, visando, também

  • Minorar o isolamento físico e psíquico;
  • Estimular a autonomia;
  • Facilitar relações interpessoais e interculturais;

É que, embora em segurança, esta fase inicial é particularmente difícil para um requerente de asilo. As dificuldades são incrementadas por vários factores: traumas causados pela fuga, a estranheza da realidade presente e a incerteza quanto ao futuro. Estes factores podem criar condições psicológicas pouco propícias à aprendizagem de uma nova língua.

Neste sentido, a assiduidade às aulas é, frequentemente, sintomática de uma atitude positiva indiciadora de esperança no futuro e vontade de ultrapassar o grande obstáculo que é o desconhecimento da língua.

Para a aquisição e alargamento das competências comunicativas tão necessárias à futura integração laboral e social, é recomendável e benéfico um ambiente favorável ao estabelecimento de relações de confiança, que minimizem o impacte da adaptação à sociedade de acolhimento e estimulem a autoconfiança.

Na fase de integração, a formação profissional, o reconhecimento de competências e a inserção no mercado de trabalho são as maiores preocupações. Perante pessoas tão diferentes, com idades, antecedentes académicos, experiências de vida e expectativas tão diferentes, há que adaptar as metodologias aos interesses e às necessidades concretas dos aprendentes, para desenvolverem as suas potencialidades e melhorarem as suas capacidades de comunicação e uso da língua nos múltiplos contactos da vida social e profissional.



Componente sociocultural

Em ambas as fases, a aquisição de competências linguísticas e comunicativas, nas diversas áreas temáticas, é estimulada por uma componente sociocultural dentro e fora da sala de aula, que para além dos objectivos a nível pedagógico, visa criar elos de ligação com o espaço/a sociedade em que estão inseridos, incluindo, entre outras, as seguintes actividades:

Conhecimento de factos históricos e socioculturais associados a festas, tradições e costumes, datas históricas ou comemorativas, nomeadamente: o Carnaval, a Páscoa, o 25 de Abril, o 1º de Maio, o 10 de Junho, os Santos Populares, o Dia Mundial do Refugiado, o São Martinho, o Natal e Ano Novo, etc;

  • Idas para a rua, visitas ao supermercado;
  • Visitas a museus, exposições, parques;
  • Idas ao teatro;
  • Passeios na área metropolitana de Lisboa e outras regiões;
  • Convívios, jogos e festas.

Numa população carente de laços sociais e afectivos, estas actividades são particularmente importantes, pois favorecem um maior relacionamento interpessoal e intercultural; facultam muita informação sobre o país e a cultura portuguesa nos seus múltiplos aspectos; proporcionam um claro alargamento do vocabulário; estimulam o debate nas aulas, o que conduz, inevitavelmente, a descodificações, comparações, etc. Além disso, facilitam o diálogo intercultural, numa partilha de conhecimentos e ideias propiciada pela diversidade de países de origem.

O domínio da língua e cultura portuguesa é decisivo na integração de todos aqueles que procuram protecção em Portugal. Mas a língua é mais do que vocabulário, gramática e uma pronúncia bonita. Encerra história, tradições, códigos sociais e culturais. O ensino-aprendizagem de uma nova língua passa necessariamente, pelo conhecimento da cultura do país, mas num ambiente de respeito e valorização do aprendente e da sua cultura, num diálogo intercultural em que se compartilham semelhanças e diferenças.


“RefugiActo”

Foi desta partilha que surgiu, em 2004, no âmbito do ensino-aprendizagem da língua portuguesa, um grupo de teatro, denominado “RefugiActo”, constituído por cerca de 20 pessoas de diferentes origens (Afeganistão, Bielorrússia, Caxemira, Costa de Marfim, Geórgia, Guiné-Bissau, Guiné-Conacri, Irão, Iraque, Myanmar, Palestina, Portugal e Rússia).

A partilha, o respeito e o conhecimento do outro têm sido os pilares essenciais deste projecto de experimentação, em que os encontros, convívios, idas ao teatro e passeios assumem tanta importância como os ensaios, exercícios e jogos teatrais destinados a melhorar a expressão linguística, corporal e dramática na comunicação teatral.

Um dos objectivos do projecto é proporcionar, aos refugiados, um fórum onde possam expressar as suas vozes e que estas sejam, de algum modo, o eco de muitas outras. Um outro, é contribuir para a sensibilização da sociedade de acolhimento no que se refere à problemática dos refugiados e à valorização da interculturalidade.

Em 1 de janeiro de 2014, com o projeto "Refúgio e Teatro: dormem mil gestos nos meus dedos", o RefugiActo passou a beneficiar de apoio da Fundação Calouste Gulbenkian através do Programa PARTIS (Práticas Artísticas para Inclusão Social).

  • RefugiActo: 10 anos!
  • Contactos:
    Isabel Galvão (isabel.galvao@cpr.pt) e
    Ângelo Merayo (angelo.merayo@cpr.pt)
    Tel: (+351) 21 994 34 31
    Fax: (+351) 21 994 87 19 72

    A aprendizagem da língua como um dos principais factores de integração
    Componente sociocultural
    “RefugiActo”
    Projeto “Refúgio e Teatro: dormem mil gestos nos meus dedos”

     
     

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    De acordo com as últimas estatísticas, o número de migrantes forçados em todo o mundo ultrapassa os 65 milhões e não pára de aumentar. O número de pessoas que buscam protecão no nosso país é de cerca de 870 por ano ou 87 pessoas por cada milhão de habitantes, um número bastante inferior à média europeia (2600 pedidos por milhão de habitantes na UE-28, em 2015). Há um quarto de século que o CPR, sempre em colaboração com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), procura minimizar as consequências das deslocações forçadas, em particular das pessoas acolhidas em Portugal.