Cate Blanchett exorta o Conselho de Segurança da ONU a proporcionar um melhor apoio aos refugiados rohingyas

NOVA YORK, 30 de agosto de 2018 - Um ano após o início do último êxodo de refugiados rohingyas, a Embaixadora da Boa Vontade do ACNUR, Cate Blanchett, apelou ao Conselho de Segurança das Nações Unidas para dar mais assistência ao Bangladeche e para que se reúnam as condições necessárias em Mianmar para o retorno dos refugiados.

Um ano depois do início da crise, a Embaixadora da Boa Vontade do ACNUR pede maior apoio para os mais de 720 mil refugiados e as comunidades que os acolhem no Bangladeche.

"É imperativo que os governos, agências de desenvolvimento e agências humanitárias, o setor privado, toda a gente, empreendam ações conjuntas para encontrar formas inovadoras de ajudar os refugiados e as comunidades de acolhimento no Bangladeche", afirmou Cate Blanchett hoje, em discurso dirigido ao Conselho de eguraça da ONU.

No ano passado, mais de 720 mil refugiados rohingyas fugiram da violência e das violações dos direitos humanos no estado de Rakhine, em Mianmar, causando uma crise de refugiados que se agudizou mais rapidamente que qualquer outra desde há décadas. Mulheres e crianças compõem a maioria das pessoas que alcançaram o Bangladeche, tendo e mais de 40% idade inferior a 12 anos.

Cate Blanchett, defensora intransigente dos direitos dos rohingyas, partilhou as histórias de alguns refugiados que conheceu durante a sua missão no Bangladeche, em março de 2018. Histórias de tortura extremas e de mulheres brutalmente estupradas que testemunharam massacres dos seus entes queridos.

“Nada me poderia ter preparado para a magnitude e a extensão do sofrimento que testemunhei”

'Nada me poderia ter preparado para a magnitude e a extensão do sofrimento que testemunhei. ' disse Cate aos líderes políticos que a ouviram. "Eu sou uma mãe e vi os meus filhos nos olhos de cada um dos pequenos refugiados que conheci. Eu me vi em cada um dos pais. "

Cate Blanchett saudou os esforços de Bangladeche para responder à emergência. O país recebeu generosamente mais de 700.000 refugiados em três meses. "Este é um dos mais óbvios e mais importantes gestos de humanidade do nosso tempo", acrescentou. "Mas as necessidades são vastas e o sofrimento é agudo. "

Mais de 600.000 rohingyas vivem em ou ao redor de Kutupalong, o maior campo de refugiados do mundo, com 13 quilômetros quadrados, uma das maiores densidades populacionais do mundo. A escala do afluxo de refugiados, combinada com os desafios impostos pelas chuvas de monção, exerce uma pressão considerável sobre as comunidades, estruturas e serviços de acolhimento no país.

A Embaixadora da Boa Vontade do ACNUR salientou que, apesar das enormes necessidades, apenas 33% do financiamento necessário para a operação de resposta aos refugiados foi recebido, representando menos de 70 centavos por pessoa por dia.

“Os rohingyas não podem regressar para viverem nas mesmas condições que os forçaram a fugir”

"Os Rohingyas não podem regressar para viverem nas mesmas condições que os forçaram a fugir", afirmou Cate. Eles precisam de água potável e instalações sanitárias para lavar, cozinhar e limpar. Eles precisam de uma casa que possa suportar as chuvas de monção e o calor. Os seus filhos devem ir à escola. Os seus avós devem receber cuidados de saúde."

Cate Blanchett acrescentou que os refugiados rohingyas precisavam mais do que de simples abrigos, escolas ou alimentos, como eles esperam para voltar para casa um dia, o que é sempre possível, neste momento.

"Os rohingyas não pode retornar às mesmas condições que tinham", disse ao partilhar a história de Gul Zahar, uma mulher rohingya que sobreviveu a três vagas de deslocação forçada do estado de Rakhine.

"Isso não é um luxo", disse ela. "Não é um privilégio. É um direito fundamental que cada um de nós aqui presentes goza. Um direito que os rohingyas não têm. "

Cate Blanchett pediu ao Conselho de Segurança para "apoiar todos os esforços para concretizar este direito" e promover a prestação de "assistência internacional mais significativa para atender às necessidades urgentes" no Bangladeche.

"Nós já falhamos com os rohingyas no passado", disse ela. "Por favor, não os decepcionem de novo”

Guterres: “uma definição clara e transparente das responsabilidades é essencial para garantir a reconciliação genuína entre todos os grupos étnicos e é um pré-requisito para a segurança e estabilidade na região”

No seu discurso de abertura no Conselho de Segurança, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, sublinhou que "a resposta à crise deve ser global". "

"As condições ainda não estão reunidas para assegurar aos refugiados rohingyas um regresso seguro, voluntário, durável e digno aos seus locais de origem ou de sua escolha", disse Guterres, e instou as autoridades em Mianmar a cooperar com as Nações Unidas para assegurar "acesso imediato, desimpedido e efetivo" às organizações e parceiros das Nações Unidas.

"O acesso dessas organizações é essencial para atender à imensidão das necessidades", acrescentou o Secretário-Geral da ONU, "e para tranquilizar refugiados receosos de voltarem para casa". Guterres reafirmou que as Nações Unidas estavam prontas para desenvolver um plano para o retorno dos refugiados aos seus locais de origem "em segurança e dignidade e em conformidade com os padrões internacionais e os direitos humanos".

Antes dos repatriamentos acontecerem, António Guterres enfatizou que as condições para uma paz duradoura devem estar em vigor no Estado de Rakhine: "uma definição clara e transparente das responsabilidades, é essencial para garantir a reconciliação genuína entre todos os grupos étnicos, e é também um pré-requisito para a segurança e estabilidade na região."

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O texto completo do discurso de Cate Blanchett no Conselho de Segurança da ONU sobre a situação em Mianmar e a crise dos refugiados rohingyas está disponível aqui.

 

DIVERSOS PROJECTOS DO CPR SÃO FINANCIADOS PELO FUNDO ASILO, MIGRAÇÃO E INTEGRAÇÃO (FAMI)

 

De acordo com as últimas estatísticas, o número de migrantes forçados em todo o mundo ultrapassa os 65 milhões e não pára de aumentar. O número de pessoas que buscam protecão no nosso país é de cerca de 870 por ano ou 87 pessoas por cada milhão de habitantes, um número bastante inferior à média europeia (2600 pedidos por milhão de habitantes na UE-28, em 2015). Há mais de um quarto de século que o CPR, sempre em colaboração com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), procura minimizar as consequências das deslocações forçadas, em particular das pessoas acolhidas em Portugal.