Souran, uma cidade que regressa lentamente à vida

SOURAN, Síria, 18 de março de 2019 (ACNUR) - A vida como refugiada nunca foi fácil para Zahida, de 35 anos, que teve que criar sozinha os seus 5 filhos depois do desapare­cimento do marido, poucos anos depois do início da guerra na Síria.

No Líbano, afirma Zahida, havia poucos empregos e as rendas eram caras. Mas voltar a casa trouxe-lhe outros problemas. "O nível de destruição é indescritível, tanto que não reconheci a minha cidade", afirmou. A sua casa de dois pisos estava transformada num monte de escombros pelo que teve que ser acolhida por parentes, mas nesta também faltavam portas e janelas.

“Não havia água nem luz. Parecia que tínhamos regressado à idade da pedra, mas a pouco e pouco as coisas foram melhorando.”

Zahida partilhou a sua história com o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, Filippo Grandi, que se encontrava na Síria para avaliar as condições extremas com que as pessoas eram confrontadas.

"Tomar a decisão de regressar é difícil e há que respeitar o facto de nem todas as pessoas deslocadas (internamente) o fazerem rapidamente", disse Grandi. "Mas às pessoas que tomam a decisão de regressar voluntariamente, devemos proporcionar-lhes ajuda, pelo menos para as suas necessidades básicas e para a sua reintegração inicial na comunidade".

Antes do conflito, em Souran viviam cerca de 47.000 pessoas, na sua maioria agricultores, comerciantes e também alguns operários. Quando os grupos armados invadiram a cidade em agosto de 2016, ela despovou-se da noite para o dia. Alguns residentes procuraram refúgio na Turquia ou no Líbano, outros foram para os arredores de Hama ou para outras zonas da Síria.

Abdelkarim escolheu ir para Hama, onde os sucessivos aumentos das rendas de casa o obrigaram, a ele e à sua família, a mudar de um lado para outro ao longo de mais de um ano. Quando regressou a Souran, encontrou a sua casa em escombros e esvaziada de tudo o que tinha valor - "Não havia portas nem torneiras... até os pregos arrancaram" .

Os ratos e os insetos não o deixavam dormir, a si e à sua família. Abdelkarim e os seus lançaram-se na reabilitação da casa. Levantaram novas paredes e, com o apoio do ACNUR, colocaram portas e janelas que lhes deram mais segurança.

Cerca de 33.000 pessoas regressaram a Souran. Eram principalmente os que viviam mais perto. Pelo menos um terço dos antigos residentes da vila ainda não regressou.

“Temos o dever de providenciar ajuda àqueles que voluntariamente regressam à sua terra”

Em 2018, calcula-se que 1,4 milhões de pessoas deslocadas internamente tenham regressado às suas casas, muitas delas foram confrontadas com graves privações. Após oito anos de violência e destruição, há ainda 5,6 milhões de refugiados a viver em países vizinhos e mais de um milhão dispersos por outras regiões do mundo.

Zahida confessou a Grandi que voltou para a sua casa em Souran porque os filhos estavam a ser muito afetados pela vida no exílio. Com 14 anos, o seu filho abandonou a escola para ajudar a manter a família, trabalhando numa barbearia. Mas o dinheiro que ganhava não era suficiente para cobrir as propinas da escola das irmãs que estavam a ficar atrasadas na progressão escolar.

A sua casa localizava-se num lote valioso, mas agora estava reduzida a ruínas. A escada de cimento que ligava os dois pisos mantinha-se presa apenas com alguns ferros e oscilava perigosamente como um pêndulo - "ver isto foi um dos momentos mais tristes da minha vida", afirmou.

Actualmente, a filha mais velha de Zahida tem aulas de recuperação no novo centro comunitário e as três mais jovens estão matriculadas na escola primária Al-Shuada, que reabriu as suas portas em novembro, com o apoio do ACNUR. Esta é uma das cinco escolas que servem a comunidade. As outras quinze permanecem encerradas, principalmente devido a danos estruturais. Ainda que muitos meninos e meninas tenham perdido meses ou anos de escolaridade, as turmas encontram-se sobrelotadas acolhendo crianças com idades que diferem 2 ou 3 anos.

Grandi também visitou a única padaria de Souran, inaugurada em janeiro com o apoio do ACNUR. Anteriormente, a cidade era abastecida por um fornecedor que se encontrava a cerca de 20 kms. A nova padaria criou 45 empregos e fez com que o preço baixasse 75%. Desde a sua abertura, a padaria trabalha em dois turnos e consome cerca de dez toneladas diárias de farinha, contribuindo para a alimentação de mais de doze mil pessoas.

“Queremos recuperar a nossa dignidade. Fora do nosso país não é a mesma coisa.”

O Alto Comissário reuniu-se também com um grupo local de mulheres que têm ajudado pessoas que regressam a Souran na recuperação do sentido de comunidade e de pertença. "Queremos voltar aos nossos lugares, à nossa terra", afirmou uma mulher. "E queremos recuperar a nossa dignidade. Fora do nosso país não é igual".

"Estamos a começar do zero", acrescentou. "Esperamos ter força suficiente para reconstruir as nossas vidas, mas também necessitamos da ajuda dos outros".

A política do ACNUR consiste em ajudar as pessoas deslocadas, tanto internamente como no estrangeiro, e em contribuir para assegurar que os que regressam voluntariamente à sua terra voltando a inserir-se nas suas comunidades recebam atempadamente a ajuda de que necessitam.

 

DIVERSOS PROJECTOS DO CPR SÃO FINANCIADOS PELO FUNDO ASILO, MIGRAÇÃO E INTEGRAÇÃO (FAMI)

 

De acordo com as últimas estatísticas, o número de migrantes forçados em todo o mundo ultrapassa os 65 milhões e não pára de aumentar. O número de pessoas que buscam protecão no nosso país é de cerca de 870 por ano ou 87 pessoas por cada milhão de habitantes, um número bastante inferior à média europeia (2600 pedidos por milhão de habitantes na UE-28, em 2015). Há mais de um quarto de século que o CPR, sempre em colaboração com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), procura minimizar as consequências das deslocações forçadas, em particular das pessoas acolhidas em Portugal.